| Marina Silva: um novo olhar sobre o Brasil |
11/09/09 |
Leonardo Boff
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Erram
os que pensam que a saida da senadora Marina Silva do PT obedeçe a propósitos
oportunistas de uma eventual candidatura à Presidência da República.
Marina Silva saiu porque possuía um outro olhar sobre o Brasil, sobre o PAC
(Programa de Acelaração do Crescimento) do governo que identifica
desenvolvimento com crescimento meramente material e com maior capacidade de
consumo.
O novo olhar, adequado à crescente consciência da humanidade e à altura da crise
atual, exige uma equação diferente entre ecologia e economia, uma redefinição de
nossa presença no planeta e um cuidado consciente sobre o nosso futuro comum.
Para estas coisas a direção atual do PT é cega. Não apenas não vê. É que não tem
olhos. O que é pior.
Para aprofundar esta questão, valho-me de uma correspondência com o sociólogo de
Juiz de Fora e Belo Horizonte, Pedro Ribeiro de Oliveira, um intelectual dos
mais lúcidos que articula a aca demia com as lutas populares e as Cebs e que
acaba de organizar um livro sobre “A consciência planetária e a
religião”(Paulinas 2009) Escreve ele:
“Efetivamente, estamos numa encruzilhada histórica. A candidatura da Marina não
faz mais do que deixá-la evidente. O sistema produtivista-consumista de mercado
teima em sobreviver, alegando que somente ele é capaz de resolver o problema da
fome e da miséria – quando, na verdade, é seu causador. Acontece que ele se
impôs desde o século XVI como aquilo que a Humanidade produziu de melhor,
ajudado pelo iluminismo e a revolução cultural do século XIX, que nos
convenceram a todos da validade de seu dogma fundante: somos vocacionados para o
progresso sem fim que a ciência, a técnica e o mercado proporcionam. Essa
inércia ideológica que continua movendo o mundo se cruza, hoje, com um outro
caminho, que é o da consciência planetária. É ainda uma trilha, mas uma trilha
que vai em outra direção”.
“Muitos pensadores e analistas descobriram a existência dessa trilha e chamaram
a atenção do mundo para a necessidade de mudarmos a direção da nossa caminhada.
Trocar o caminho do progresso sem fim, pelo caminho da harmonia planetária”.
“Esta inflexão era a voz profética de alguns. Mas agora, ela já não clama mais
no deserto e sim diante de um público que aumenta a cada dia. Aquela trilha já
não aparece mais apenas como um caminho exclusivo de alguns ecologistas mas como
um caminho viável para toda a humanidade. Diante dela, o paradigma do progresso
sem fim desnuda sua fragilidade teórica e seu dogma antes inquestionável ameaça
ruir. Nesse momento, reunem-se todas as forças para mantê-lo de pé, menos por
meio de uma argumentação consistente do que pela repetição de que “não há
alternativas” e que qualquer alternativa “é um sonho”.
“É aqui que situo a candidatura da Marina. É evidente que o PV é u m partido que
pode até ter sido fundado com boas intenções mas hoje converteu-se numa legenda
de aluguel. Ninguém imagina que a Marina – na hipótese de ganhar a eleição – vá
governar com base no PV. Se eventualmente ela vencer, terá que seguir o caminho
de outros presidentes sul-americanos eleitos sem base partidária e recorrer aos
plebiscitos e referendos populares para quebrar as amarras de um sistema que
“primeiro tomou a terra dos índios e depois escreveu o código civil”, como
escreveu o argentino Eduardo de la Cerna”.
“Mesmo que não ganhe, sua candidatura será um grande momento de conscientização
popular sobre o destino do Brasil e do Planeta. Marina Silva dispensará os
marqueteiros, e entrarão em campanha os seguidores de Paulo Freire”.
“Esta é a diferença da candidatura Marina. Serra, do alto da sua arrogância,
estimula a candidatura Marina para derrubar Lula e manter a política de
crescimento e concentraçã o de riqueza. Lula, por sua vez, levanta a bandeira da
união da esquerda contra Serra, mas também para manter a política de crescimento
e de concentração da riqueza, embora mitigada pelas políticas sociais”.
“Marina representa outro paradigma. Não mais a má utopia do progresso sem fim,
mas a boa utopia da harmonia planetária. A nossa visão não é restrita a
2010-2014. Estamos mirando a grande crise de 2035 e buscando evitá-la enquanto é
tempo ou, na pior das hipóteses, buscar alternativas ao seu enfrentamento.
É por isso, por amor a nossos filhos, netos e netas, temos que dar força à
candidatura da Marina. E que Paulo Freire nos ajude a fazer dessa campanha
eleitoral uma campanha de educação popular de massas”.
Digo eu com Victor Hugo:”Não há nada de mais poderoso no mundo do que uma idéia
cujo tempo já chegou”.
